A memória litúrgica que hoje celebramos, dedicada a Santa Maria, Mãe de Deus, não é apenas uma festa mariana; é o alicerce de nossa confissão de fé cristã. Curiosamente, ela se estabeleceu no calendário ocidental como uma resposta solene, quase um contraponto sagrado, aos ritos que obscureciam a verdadeira natureza do mistério da Encarnação. Os primeiros cristãos precisavam de uma expressão clara, imune às sombras da mitologia pagã, para proclamar uma verdade inegociável: Aquele que era o Verbo eterno, antes de todo tempo, assumiu a carne no ventre puríssimo de uma Virgem.
Este título glorioso, Mãe de Deus, não é um adorno poético, mas a síntese de dogmas firmados em concílios ecumênicos vitais. Nicéia e Constantinopla, no calor dos primeiros séculos, debruçaram-se sobre a identidade de Jesus: Ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. A maternidade de Maria, portanto, é o ponto de junção onde o Infinito tocou o finito, sem que o Infinito se esvaziasse.
A Carne Pura e a Trindade Imutável
Como nos ensinava Santo Atanásio, o corpo que Cristo recebeu de Maria era um corpo humano, idêntico ao nosso. Isso nos recorda que Maria, na sua humanidade singular, torna-se nossa irmã. Ela participou da condição humana que aceitamos como nossa. Contudo, a beleza desse mistério reside na sua inalterabilidade divina. No momento em que o Verbo assumiu a humanidade no seu seio, a Santíssima Trindade permaneceu em sua glória perfeita e imutável. Não houve acréscimo a Deus, nem diminuição em Sua essência.
Neste sublime entrelaçamento, reconhecemos a única Divindade que reside no Pai e no Filho. Por isso, a Igreja a aclama, com reverência inabalável: a Virgem Santíssima é a Mãe de Deus.
O Eco de Éfeso: *Theotókos*
A consagração oficial deste título ocorreu no Concílio de Éfeso, em 431. Ali, a Igreja ecoou o termo grego carregado de significado profundo: Theotókos. Embora os Evangelhos falem da “Mãe de Jesus”, eles também O reconhecem como Deus (João 20,28). Maria é, portanto, a Mãe do Emanuel, que significa, literalmente, “Deus conosco” (Mateus 1,23). A fé que se fez carne em Maria nos chama à coragem de viver o milagre de cada dia.
Houve, claro, vozes que tentaram distorcer a pureza deste conceito. Notoriamente, a controvérsia levantada contra a legitimidade do termo *Theotókos* focava-se em uma sutileza de acento, querendo mudar o sentido de “Gerada de Deus” para algo mais vago e menos divino. A Igreja resistiu, pois defender a maternidade divina de Maria era, essencialmente, defender a plena divindade do Filho que Ela gerou.
Uma Proclamação de Fé Dupla
Ao dizer “Mãe de Deus”, a Igreja não está apenas exaltando Maria; ela está reafirmando a sua cristologia. É uma expressão que une, em uma só voz, a fé no Filho encarnado e o amor filial pela Mãe que O trouxe ao mundo. Maria é o portal pelo qual a História da Salvação se torna palpável, o centro onde Deus escolheu iniciar sua caminhada entre os homens.
Maria em Nosso Cotidiano Devocional
Como podemos viver a sombra desta primeira e mais pura das festas? Em tempos de tanta fragmentação de crenças, a figura de Maria, a Theotókos, nos convida à simplicidade radical da fé entregue. Ela nos ensina a aceitar o plano de Deus, mesmo quando ele parece humanamente impossível. Quem Foi Nossa Senhora: A Vida da Mãe de Jesus
Consagrar nosso ano, como fazemos no início do calendário cristão, é um ato de imersão na vontade divina, feito através das mãos que seguraram o Verbo Encarnado. Ela nos orienta a Jesus, o nosso único foco. Que a sua proteção nos cerque para que possamos, em cada dia, ser mais dEle. Quais são os 4 Dogmas de Maria? Desvende a Fé Católica
Que nossa vida seja um contínuo “sim” ao mistério, imitando Aquela que soube ser o berço santo de Deus.
A fé que se fez carne em Maria nos chama à coragem de viver o milagre de cada dia.
Fonte de inspiração: Canção Nova





