A história de Santa Josefina Bakhita, celebrada hoje, começa sob o sol escaldante do Sudão, em circunstâncias que a alma mal consegue conceber. Aos nove anos, a inocência foi brutalmente roubada por homens armados. A pequena africana foi arrancada de seu lar, da memória de seu nome verdadeiro, mergulhada em um abismo de escuridão onde o valor humano era medido em moedas.
Os mercadores, em um ato de cruel sarcasmo, a rebatizaram de “Bakhita”, que significa “sortuda” ou “afortunada”. Que terrível ironia para quem se tornara propriedade, um objeto transitando por mercados infames. Suas provações atingiram um ponto inimaginável de dor quando, a serviço de um comandante turco, seu corpo foi marcado com 114 cortes profundos, feridas que eram deliberadamente esfregadas com sal para garantir a permanência das cicatrizes – um mapa indelével de sua servidão.
Um Raio de Luz no Inferno
No entanto, a Providência Divina tece seus planos nos lugares mais inesperados. Bakhita sobreviveu à brutalidade, não pela força de seus membros, mas pela graça que já a envolvia, ainda que inconscientemente. O destino mudou quando um oficial italiano, Callisto Legnami, a adquiriu. Pela primeira vez, Bakhita vestiu um traje decente e experimentou a paz de um lar onde não era chicoteada. Ali, a porta se fechou para uma década de tormentos indizíveis.
Este breve oásis de dignidade foi interrompido pela turbulência política. Forçada a deixar a Itália, Bakhita tomou uma atitude de fé e coragem: ela ousou pedir para ir junto. Este ato de confiança seria o seu primeiro grande passo rumo à liberdade espiritual.
O Encontro com o Verdadeiro Patrão
Ao chegar à Itália, a sorte de Bakhita começou a ser reescrita pelas mãos de Deus. Por um período, ela foi confiada aos cuidados das Irmãs Canossianas em Veneza. Foi nesse ambiente de caridade que a luz da Verdade a alcançou. Ali, ela não apenas aprendeu as doutrinas da fé, mas experimentou o amor incondicional de Cristo. Saiba mais sobre a vida e obra de Santa Josefina Bakhita aqui.
Em 1890, selando sua nova identidade em Cristo, Bakhita recebeu o Batismo, o Crisma e a Eucaristia, adotando o nome que ecoa hoje: Giuseppina (Josefina). Sua escolha subsequente de ingressar na vida religiosa, aos 24 anos, não foi um mero refúgio, mas uma entrega total. Ela trocou as correntes da escravidão pelas vendas de uma Canossiana, tornando-se cozinheira, sacristã e, notavelmente, a porteira do convento de Schio. Ela se referia a Deus com uma ternura singular, chamando-O de “meu Patrão”.
A Doçura da Irmã Chocolate
Um detalhe belo de sua vida conventual revela a pureza de seu espírito. Devido à sua pele escura em um contexto predominantemente europeu, as crianças do local a apelidaram carinhosamente de “irmã de chocolate”. Este apelido, que hoje remete à sua origem africana, era na verdade um reflexo da doçura genuína que emanava de suas palavras e ações. Ela era um testemunho vivo de que a alegria cristã transcende qualquer cor ou origem.
A Lição da Gratidão Profunda
Quando Irmã Josefina Bakhita faleceu, em 1947, a tristeza tomou conta da comunidade. Contudo, o legado que ela deixou é um hino à resiliência forjada na fé. Sua declaração mais impactante revela a profundidade de sua conversão: se pudesse reencontrar seus sequestradores e torturadores, ela se ajoelharia para beijar suas mãos. Por quê? Porque, sem aquela escuridão inicial, ela jamais teria encontrado a Luz de Cristo. Que a prática diária da fé nos ajude a transformar nossas provaes.
Esta é a lição para nós hoje: Deus pode usar até mesmo as maiores tragédias da nossa vida – as injustiças, as traições, as dores profundas – para nos conduzir ao Seu abraço redentor. Santa Josefina Bakhita nos ensina a humildade de aceitar o sofrimento como um caminho para uma glória maior e a superação de ver no opressor um instrumento involuntário da nossa santificação.
Que a força de Santa Josefina Bakhita nos inspire a transformar nossas cicatrizes em testemunhos de que a verdadeira liberdade reside apenas no amor de Deus.
Fonte de inspiração: Canção Nova




