A palavra iníquo evoca a ideia de sujeira, de algo impuro. No contexto do evangelho, essa sujeira se traduz em iniquidade moral, uma das formas mais diretas de se referir ao pecado. Não se trata de simples imperfeição, mas de uma manifestação ativa da maldade da criatura, que abusa de sua inteligência e vontade, desobedecendo a Deus. Isso reflete em dinâmicas sociais complexas.
O Cenário Atual da Iniquidade
Vivemos tempos em que o avanço da iniquidade parece alarmante. Jesus, em Mateus 24:9-13, já nos alertava sobre as consequências crescentes dessa realidade: “Sereis entregues aos tormentos. Matar-vos-ão e sereis por minha causa objeto de ódio para todas as nações. Muitos sucumbirão mutuamente e mutuamente se odiarão. Levantar-seão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos. E ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos esfriará. Entretanto, aquele que perseverá até o fim será salvo.”
Trinta anos depois, o apóstolo Paulo, em sua segunda carta aos Tessalonicenses (2:3-8), expande essa visão, falando sobre o homem da iniquidade e o mistério da iniquidade. Ele descreve um ser que se opõe a tudo o que é divino e sagrado, buscando usurpar o lugar de Deus. O mistério da iniquidade, segundo Paulo, já está em ação, aguardando o momento certo para se manifestar plenamente.
Personalidade e Táticas do Maligno
Uma das maiores vitórias do demônio é fazer com que as pessoas acreditem que ele não existe, ou que sua força é insignificante. Como disse São Paulo VI em 1972, o mal não é apenas uma deficiência, mas um ser vivo espiritual, perverso e pervertido. Negar sua existência é afastar-se do ensinamento bíblico e eclesiástico.
O chefe das hostes infernais possui uma miríade de nomes no Novo Testamento, como Satanás, o tentador, o mentiroso, o adversário. Sua personalidade é marcada por características alarmantes:
- Inveja: É a tristeza pelo bem alheio, acompanhada do desejo de vê-lo destruído. O demônio inveja tudo o que Deus criou, especialmente o homem.
- Ódio: Cheio de grande ira, o demônio odeia a humanidade, sabendo que seu tempo é limitado.
- Homicida e Mentiroso: Desde o princípio, ele busca a destruição da vida e a disseminação da falsidade.
- Sedutor: Ele engana, ilude e busca nos desviar de Deus através de promessas vazias e prazeres momentâneos.
O plano do inimigo se desenrola em três etapas claras: roubar, matar e destruir. Ele rouba a semente do bem plantada em nossos corações, mata a alma através do pecado mortal e, por fim, destrói o que resta da nossa ligação com Deus.
Os Níveis de Ação do Maligno
A atuação do maligno se manifesta em níveis ordinários e extraordinários:
Nível Ordinário: A Tentação
A tentação é a sugestão para a prática do pecado. O demônio, astuto, nem sempre começa com o mal explícito. Ele questiona a verdade, insinua dúvidas e apela para nossas necessidades e desejos, como fez com Eva e com Jesus no deserto. Ele busca nos convencer a sermos nosso próprio deus, a criar nossas próprias regras, afastando-nos da obediência a Deus. Para saber como resistir, veja nosso guia sobre como vencer a tentação.
Níveis Extraordinários
Quando a tentação não é suficiente, o maligno pode atuar em níveis mais intensos:
- Vejación diabólica: Causar tormento físico, com arranhões, cortes e outras manifestações externas prejudiciais.
- Obsessão diabólica: Atuar na esfera psíquica, perturbando a imaginação, a estima e a memória com fantasias imorais e ideias absurdas.
- Possessão demoníaca: O demônio controla o corpo, manifestando ódio, arrogância e fúria contra Deus e o próximo.
- Infestação diabólica: A ação do demônio em lugares, coisas ou animais, prejudicando indiretamente a vida das pessoas.
Diante de tais realidades, a Igreja nos adverte com prudência, recomendando o discernimento e a consulta a profissionais quando necessário. Contudo, a fé e a submissão a Deus são nossas maiores armas.
Sinais do Crescimento da Iniquidade
Podemos observar o avanço da iniquidade através de:
- Indiferentismo: A mentalidade de que toda religião é igual e não tem impacto em nossas vidas.
- Relativismo: A ideia de que tudo é relativo, e cada um cria suas próprias regras e mandamentos.
- Secularismo agressivo: Não apenas a separação entre igreja e estado, mas a perseguição e a diminuição da liberdade religiosa.
- Permissivismo: A aceitação de tudo, como a cultura da morte que relativiza a vida e banaliza o aborto, a eutanásia e as drogas.
- Difusão de antivalores: Chamar o mal de bem e o bem de mal, a treva de luz e a luz de treva.
- Satanização do divino e divinização do satânico: Ver a obra de Deus como obra do diabo e glorificar aquilo que o diabo defende.
- Perseguição à Igreja: A guerra declarada contra aqueles que guardam os mandamentos de Deus.
- Defecções e disputas na Igreja: Escândalos, divisões internas e canibalismo espiritual entre irmãos.
Para enfrentar essa batalha, a Igreja nos oferece a armadura do cristão: oração, jejum, sobriedade, vigilância, fé, submissão a Deus, resistência ao demônio, intimidade com Deus, purificação do coração, vida sacramental (confissão e Eucaristia) e devoção à Virgem Maria.
Não tenhamos medo do demônio. Ele é um atrevido que se faz passar por onipotente, mas suas limitações esbarram na graça de Deus. Busquemos essa graça e nos tornaremos inexpugnáveis.





