Provai e Vede Quão Suave é o Senhor! – Uma Reflexão Profunda sobre o Salmo 33(34)
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Como devemos escolher a melodia do Salmo de domingo?

Para compreender que tipo de melodia deve ser escolhida para o salmo de domingo, é necessário recorrer ao “código jurídico” da música sacra estabelecido por São Pio X no Motu Proprio Tra le Sollecitudini e reafirmado por João Paulo II no centenário deste documento. Estes critérios fundamentam a distinção entre o que é apto para o culto divino e o que pertence à esfera profana.

Santidade e Exclusão do Profano

A primeira qualidade exigida é a santidade. A música sacra deve excluir todo o elemento profano, não apenas na sua composição intrínseca, mas também no modo como é executada. Melodias que evocam ritmos de teatro, dança ou entretenimento popular são consideradas inadequadas, pois distraem os fiéis do mistério celebrado. A santidade implica que a melodia do salmo deve criar uma atmosfera de oração, elevando o espírito a Deus em vez de provocar uma resposta puramente emocional ou física.

Provai e Vede Quão Suave é o Senhor! – Uma Reflexão Profunda sobre o Salmo 33(34)

Beleza de Formas e Arte Verdadeira

A música sacra deve ser “arte verdadeira”. Não basta que um canto tenha um texto piedoso; a estrutura musical deve possuir dignidade, seriedade e gravidade. A Igreja ensina que a arte dos sons é admitida na liturgia para acrescentar eficácia ao texto, ajudando os fiéis a se disporem para a recepção da graça. No caso do salmo dominical, a melodia deve ser composta com tal perícia que respeite a acentuação e o ritmo natural da língua, evitando distorções que prejudiquem a compreensão da Palavra.

Universalidade e Identidade

Embora a Igreja permita que cada nação incorpore formas específicas de sua cultura musical, estas devem estar subordinadas aos caracteres gerais da música sacra. A universalidade garante que um fiel de qualquer parte do mundo, ao ouvir a melodia de um salmo, sinta que está diante de um ato de culto da Igreja Católica e não de uma manifestação cultural puramente secular. João Paulo II reforça que a música não pode ser entregue à improvisação ou ao arbítrio individual, exigindo conformidade com a tradição da Igreja.

O Estilo Gregoriano: Modelo Supremo e não Exclusivo

Uma das questões mais frequentes refere-se à obrigatoriedade do estilo gregoriano. O Concílio Vaticano II e o Magistério subsequente são claros: o Canto Gregoriano é o canto próprio da liturgia romana e deve ocupar o primeiro lugar em igualdade de circunstâncias. No entanto, ele não é o único estilo permitido.

A Primazia do Canto Gregoriano

O Canto Gregoriano é considerado o supremo modelo da música sacra. Quanto mais uma composição para o salmo se aproxima do espírito gregoriano em sua sobriedade, fluidez e submissão ao texto, mais sagrada e litúrgica ela se torna. Para o salmo de domingo, o uso de tons salmódicos gregorianos é altamente recomendado pela sua capacidade de favorecer a meditação silenciosa e a escuta da Palavra.

Admissibilidade de Outros Estilos

A Igreja não rejeita nenhum gênero de música sacra que possua as qualidades de santidade e perfeição de formas. A Instrução Musicam Sacram de 1967 e o Documento 79 da CNBB admitem a polifonia sagrada, o canto popular religioso e composições contemporâneas, desde que estas respeitem o espírito da ação litúrgica.

Estilo MusicalStatus na LiturgiaAplicação no Salmo
Canto GregorianoModelo Supremo.Ideal para versículos e refrães tradicionais.
Polifonia ClássicaMuito apreciada.Pode ser usada pelo coro em partes polifônicas do salmo.
Canto Popular LitúrgicoPermitido e incentivado.Útil para a participação da assembleia em vernáculo.
Música Profana/TeatralProibida.Jamais deve ser adaptada para o salmo.

Portanto, a melodia do salmo não precisa ser exclusivamente gregoriana, mas deve ser informada pela tradição gregoriana. No Brasil, o uso de melodias populares que respeitem a dignidade do texto e a participação da assembleia é uma prática aprovada pela conferência episcopal, especialmente com o uso de salmos metrificados.

Orientações Práticas da IGMR e do Lecionário para o Domingo

A escolha da melodia para o domingo deve considerar a solenidade do Dia do Senhor. A IGMR e as Preliminares do Lecionário oferecem orientações técnicas para garantir que o salmo cumpra seu papel de “salmo de meditação”.

Preferência pelo Canto e Modos de Execução

O salmo dominical deve, preferencialmente, ser cantado. A instrução prevê que, ao menos, o refrão do povo seja cantado para facilitar a resposta orante. Existem dois modos principais:

  1. Modo Responsorial: O salmista canta os versículos e o povo o refrão. É o modo que melhor promove a participação ativa.
  2. Modo Direto: O salmo é cantado sem refrão intercalado, seja apenas pelo cantor ou por toda a assembleia. Este modo é menos comum mas previsto para certas circunstâncias meditativas.

Se o salmo não puder ser cantado, deve ser recitado de forma a favorecer a meditação, evitando-se leituras apressadas ou desprovidas de tom orante.

A Escolha do Refrão e Textos Alternativos

Para facilitar a participação do povo, o Missal e o Lecionário permitem que, em vez do texto correspondente à leitura, sejam utilizados refrães e salmos selecionados para os diferentes tempos litúrgicos ou categorias de Santos. Esta flexibilidade visa garantir que a assembleia possa cantar com confiança, utilizando melodias e textos que lhes sejam familiares e que capturem o espírito da estação litúrgica.

Proibições e Prevenção de Abusos na Música Litúrgica

A Instrução Redemptionis Sacramentum e outros documentos pós-conciliares alertam sobre a necessidade de vigiar para que abusos não desfigurem a liturgia. A liberdade de escolha das melodias não é absoluta e encontra limites na própria natureza do rito.

O que a Igreja Proíbe ou Reprova

  1. Substituição do Salmo por Cantos Genéricos: É proibido substituir o Salmo Responsorial por cânticos religiosos que não sejam salmos bíblicos ou que não constem no Lecionário aprovado.
  2. Melodias de Estilo Profano: O uso de estilos musicais que remetam a concertos de rock, pop ou música de entretenimento é reprovado por comprometer o caráter sagrado da ação.
  3. Performances do Salmista: O salmista não deve transformar o momento em uma exibição vocal individualista. Gestos, palavras de animação ou introduções estranhas ao rito (“vamos cantar com muita alegria o salmo de hoje”) são desaconselhados.
  4. Uso de Instrumentos Inadequados: Instrumentos que não possuam sentido de oração, dignidade e beleza, como baterias fragorosas ou instrumentos puramente rítmicos que impeçam a audição do texto, devem ser evitados.
  5. Modificações Arbitrárias: Mudar o texto do salmo para que ele se ajuste a uma melodia pré-escolhida é um abuso grave, pois o texto bíblico deve ter primazia sobre a forma musical.

A Autoridade do Bispo e da Sé Apostólica

A regulamentação da liturgia e da música sacra depende unicamente da autoridade da Igreja, que reside na Sé Apostólica e no Bispo Diocesano. As melodias usadas na missa dominical em língua vernácula devem ser aprovadas pela conferência episcopal territorial. No Brasil, a CNBB fornece subsídios e partituras oficiais através de seus setores de música litúrgica, que devem ser a fonte primária de consulta para os músicos.

O Papel dos Instrumentos Musicais no Salmo Dominical

A melodia do salmo pode ser enriquecida por instrumentos, mas estes devem estar sempre ao serviço do canto e da oração.

A Primazia do Órgão de Tubos

A Igreja mantém uma estima particular pelo órgão de tubos como o instrumento tradicional capaz de elevar o espírito a Deus e dar esplendor às cerimônias. No salmo de domingo, o órgão é o acompanhamento ideal por sustentar a voz humana sem abafá-la.

Outros Instrumentos e a Dignidade do Templo

Outros instrumentos podem ser admitidos desde que sejam aptos para o uso sacro e correspondam à dignidade do templo. João Paulo II enfatiza que instrumentos que são puramente barulhentos ou que não favorecem a edificação dos fiéis não têm lugar na liturgia. O critério de admissibilidade não é o gosto pessoal, mas a capacidade do instrumento em “acrescentar eficácia ao texto”.

InstrumentoRecomendação LitúrgicaFunção no Salmo
Órgão de TubosPrimazia absoluta.Sustentar a harmonia e elevar a solenidade.
PianoProibido tradicionalmente (TLS); tolerado em contextos pastorais modernos.Deve ser usado com sobriedade, evitando estilos de jazz ou lounge.
Cordas (Violino, Violoncelo)Altamente recomendadas.Ajudam na expressividade melódica dos versículos.
Bandas/BateriaGeralmente proibidas ou reprovadas.Contrastam com o silêncio e a meditação exigidos pelo salmo.

A Realidade Brasileira e o Documento 79 da CNBB

No Brasil, a música litúrgica passou por um processo intenso de inculturação após o Vaticano II. O Documento 79 da CNBB estabelece diretrizes para que a música seja “enraizada na cultura brasileira” mas permaneça fiel à tradição bíblico-litúrgica.

Salmos Metrificados e a Tradição Popular

Devido às dificuldades de cantar textos em prosa, a CNBB aprovou traduções metrificadas dos salmos no Lecionário brasileiro. Isso permite que melodias mais próximas do gênio musical do povo brasileiro sejam utilizadas, facilitando a memorização do refrão. No entanto, os critérios de “nobre simplicidade” e “beleza de formas” continuam valendo; uma melodia popular brasileira para o salmo deve ser digna e não deve ser confundida com música de entretenimento ou folclore profano.

O Salmista como Ministro da Palavra

No contexto brasileiro, reforça-se que o salmista exerce um autêntico ministério litúrgico. Ele deve ser instruído não apenas em técnica vocal, mas também em liturgia e espiritualidade, para que seu canto não seja um “show” mas um serviço à Palavra de Deus. A escolha da melodia deve respeitar a extensão vocal do salmista e a capacidade acústica da igreja para garantir que cada palavra do texto inspirado seja ouvida claramente por toda a assembleia.

Considerações sobre a Escolha Melódica para o Tempo Litúrgico

O tipo de melodia escolhida para o domingo deve variar conforme o tempo litúrgico, expressando a riqueza do mistério de Cristo ao longo do ano.

Advento e Quaresma: Sobriedade e Penitência

Nestes tempos, a música deve ser marcada pela sobriedade. As melodias dos salmos devem ser mais simples e menos ornamentadas. Na Quaresma, especificamente, o acompanhamento instrumental deve ser usado apenas para sustentar o canto, e as melodias devem refletir o espírito de conversão e súplica. O uso de tons salmódicos menores ou melodias mais graves pode ajudar a sinalizar este tempo de jejum auditivo.

Páscoa e Natal: Exultação e Brilho

Nos domingos de Páscoa e Natal, a melodia do salmo deve ser festiva e brilhante. O uso de refrães aleluiáticos e melodias mais ricas, acompanhadas com maior plenitude instrumental, ajuda a assembleia a celebrar a vitória de Cristo e o mistério da Encarnação. A música dominical, como “Páscoa semanal”, deve sempre ter um caráter mais elevado do que a de uma missa de feira durante a semana.

Síntese das Recomendações e Proibições Finais

A escolha das melodias para os salmos dominicais é uma tarefa de grande responsabilidade teológica e pastoral. Não se trata apenas de “o que soa bem”, mas de “o que reza bem” e “o que serve à Palavra”.

CategoriaRecomendações (O que fazer)Proibições (O que evitar)
Fonte do TextoUsar sempre o texto do Lecionário aprovado.Substituir por hinos, cantos devocionais ou letras autorais.
Estilo MelódicoInspirar-se no Canto Gregoriano e na nobre simplicidade.Adotar estilos de baladas românticas, ritmos dançantes ou rock.
ParticipaçãoCriar refrães que a assembleia aprenda em segundos.Criar melodias excessivamente complexas ou saltitantes para o povo.
InstrumentaçãoDar prioridade ao órgão e instrumentos de som nobre.Usar instrumentos puramente rítmicos que abafem a voz.
PosturaO salmista deve ser discreto e focado na proclamação.Posturas de palco, aplausos ou comentários introductórios informais.

A Igreja, através do Catecismo, nos lembra que “quem canta, reza duas vezes”. Quando o músico escolhe uma melodia que respeita a santidade do altar, a beleza da arte e a participação fiel da assembleia, ele permite que o Espírito Santo realize as maravilhas anunciadas pela Palavra de Deus, transformando o rito em uma experiência viva de encontro com o Ressuscitado.

A escolha de melodias para os salmos não deve ser vista como uma limitação à criatividade, mas como um convite a entrar no rio da tradição viva da Igreja, onde a beleza e a verdade se beijam para a glória de Deus e a santificação dos homens. Ao seguir estas fontes oficiais — do Concílio Vaticano II ao Magistério dos Papas e às orientações das conferências episcopais — o músico litúrgico garante que o seu serviço seja verdadeiramente eclesial e espiritualmente fecundo.

Referências e Fontes Oficiais

  • Constituição Sacrosanctum Concilium (Concílio Vaticano II) – Documento fundamental sobre a reforma da liturgia e o papel da música sacra. Acessar no Vaticano
  • Documento 79 da CNBB: A Música Litúrgica no Brasil – Orientações específicas para a realidade pastoral brasileira e inculturação. Acessar na CNBB
  • Preliminares do Lecionário Romano – Regras técnicas sobre a execução do Salmo Responsorial e aclamações. Acessar em Liturgia.pt
  • Motu Proprio Tra le Sollecitudini (São Pio X) – O código jurídico da música sacra que estabelece os critérios de santidade e arte. Ver Documento
  • Instrução Geral sobre o Missal Romano (IGMR) – Normas para a celebração da Missa, incluindo o parágrafo 61 sobre o Salmo. Ver Normas
  • Quirógrafo de João Paulo II sobre a Música Sacra – Documento que atualiza as normas de Pio X para o tempo atual. Ver Documento
  • Instrução Redemptionis Sacramentum – Orientações sobre o que deve ser observado e evitado na Eucaristia. Ver Instrução
  • Catecismo da Igreja Católica (Parágrafos 1156-1158) – A teologia do canto e da música na celebração litúrgica. Ver Catecismo
  • Instrução Musicam Sacram (1967) – Normas sobre a música na sagrada liturgia após o Vaticano II. Ver Instrução
  • Estudos e Artigos (Salve a Liturgia) – Subsídios pastorais sobre o Salmo Responsorial e música litúrgica. Ver Artigo

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