A reflexão sobre a vida cristã nos convida a mergulhar na profundidade da Palavra, especialmente a partir da Segunda Leitura de São Paulo aos Coríntios (Capítulo 15, Versículos 45-49). Este trecho bíblico nos apresenta uma dualidade fundamental: o primeiro homem, Adão, como um ser vivo, e o segundo Adão, Jesus Cristo, como um espírito vivificante. Essa distinção é a chave para compreendermos a vida sobrenatural à qual somos chamados.
Quem é o primeiro Adão? É o Adão bíblico, o homem terrestre, que nos legou uma existência de rotina e limitações. Mas Jesus Cristo, o segundo Adão, veio para recriar a humanidade. É por isso que o domingo, o oitavo dia, é considerado o dia da nova criação, o dia da Ressurreição. Assim como Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, Ele o recria no oitavo, inaugurando o tempo pascal de renovação e esperança.
A Batalha entre o Natural e o Sobrenatural
A Sagrada Escritura nos mostra dois modos de vida distintos: o modo adâmico e o modo de Cristo. O modo adâmico está ligado às coisas da Terra, a uma vida ordinária, natural, pautada por reações humanas. É a vida de quem ama quem o ama, faz o bem a quem o beneficia, e, infelizmente, retribui o mal com o mal. Essa é a lógica do “olho por olho, dente por dente”, que reflete nossa natureza decaída.
Contudo, a vinda de Cristo nos convida a transcender essa existência. Não estamos mais limitados ao legado de Adão e Eva; somos convidados a estar em Cristo. Esta é a **vida extraordinária e sobrenatural**, que vai além do natural e requer um esforço contínuo. Mas essa força extra não vem de nós mesmos; ela nos é dada pela graça de Deus, pela vida de oração, pela Eucaristia, pela pregação da Palavra, pelos sacramentos, pela devoção mariana e pela intercessão dos anjos e santos.
O Desafio de Amar os Inimigos na Prática
O homem natural tende à vingança, a guardar mágoa, a desejar o mal para quem o prejudica. No entanto, Jesus nos faz um pedido revolucionário: **Amai os vossos inimigos**. Não é um pedido fácil, mas é possível pela lente de Cristo. Cardeal Raniero Cantalamessa nos lembra que, sem Cristo, agimos à nossa maneira; com a lente de Cristo, agimos pelos valores do Evangelho.
Um exemplo notável é a história de Davi e Saul. Saul, inimigo de Davi, teve sua vida poupada por Davi mesmo quando estava adormecido e vulnerável. Davi escolheu não vingar-se, mostrando uma ação sobrenatural ao invés de uma reação natural de vingança. Da mesma forma, Madre Teresa de Calcutá e o médico que operou o agressor de sua filha nos ensinam que o amor ao inimigo não é por merecimento da pessoa, mas por causa de Deus.
Três Atitudes Concretas para Amar Seus Inimigos
Jesus, no Evangelho de Lucas (Capítulo 6, Versículos 27-28), nos oferece três atitudes fundamentais para amar os inimigos:
1. Fazei o bem aos que vos odeiam
Isso significa que, mesmo tendo a oportunidade de fazer o mal, escolhemos não fazê-lo e, se possível, fazer o bem. É uma decisão consciente de ir contra a nossa inclinação natural de retribuir com a mesma moeda.
2. Bendizei os que vos amaldiçoam
Não fale mal da pessoa que te prejudicou. Falar mal alimenta o desejo de vingança e impede a cura interior. É fundamental direcionar suas palavras e sentimentos a Deus, permitindo que Ele atue em seu coração e no da outra pessoa.
3. Rezai por aqueles que vos caluniam
A oração é a ponte entre o natural e o sobrenatural. Rezar pelos inimigos pode parecer difícil no início, mas é um ato poderoso que transforma o coração, levando-o da raiva à misericórdia. Não se trata de conviver com o inimigo, mas de ter para com ele uma atitude de amor que Cristo espera.
Quem vive essa vida sobrenatural, agindo com essas atitudes, receberá uma grande recompensa de Jesus. Contemplar o Crucifixo nos lembra que o que o pecado fez a Jesus é incomparavelmente pior do que qualquer mal que possamos receber de alguém. Ele nos perdoou; por que não perdoaríamos nossos irmãos? Não há desculpas para não buscar a transição da vida natural para a sobrenatural, agraciando o coração de Nosso Senhor.





