Neste dia, voltamos nossos olhos e corações para terras distantes, onde a semente do Evangelho foi plantada e regada com um sacrifício supremo. Conhecemos a história de São Paulo Míki, o primeiro mártir japonês e um filho genuíno da Companhia de Jesus. Sua jornada rumo à fé foi um eco da graça que São Francisco Xavier havia semeado anos antes. A família de Míki acolheu a luz do Cristo, e ele, com fervor juvenil, abraçou a vocação jesuíta.
Embora o sonho de ser ordenado sacerdote não se concretizasse em seu tempo — devido à ausência de um bispo local —, Paulo Míki não deixou que a burocracia da Igreja o impedisse de ser um missionário incansável. Sua vida foi um diálogo vibrante, um verdadeiro testemunho levado aos corações dos budistas e do povo japonês. Ele compreendeu que o sacerdócio se manifesta não apenas no altar, mas na coragem de viver a Verdade em todos os encontros.
A Tempestade da Perseguição
A paz, infelizmente, nunca é duradoura quando o ódio à Verdade se levanta. Por volta de 1597, o poder militar do Shogun Hideyoshi voltou-se contra os cristãos. Havia desconfiança sobre as ordens missionárias e ciúmes do crescente número de convertidos. Nesse clima de terror, São Paulo Míki foi arrebatado juntamente com um grupo heterogêneo e belíssimo de almas: seis frades franciscanos, outros três jesuítas e dezessete leigos fervorosos, incluindo dois jovens cuja inocência tornava o testemunho ainda mais pungente.
A condenação foi a mais cruel reservada aos inimigos do Estado: a cruz. Em 5 de fevereiro de 1597, no Monte Tateyama, em Nagasaki, vinte e seis almas foram pregadas. Olhando para aqueles 26 mártires, vemos um mosaico da Igreja: sacerdotes, religiosos e o povo simples que acreditou no Rosto de Cristo.
O Último Sermão do Gólgota Japonês
O que define o martírio não é a dor, mas a resposta à dor. Conta a tradição que, mesmo exposto na cruz, pronto para ser trespassado pelas lanças, Paulo Míki não calou. Ele proclamou o Reino com clareza cristalina, oferecendo o perdão aos seus algozes, imitando o Mestre no auge do sofrimento. A maior curiosidade espiritual aqui é a ausência de fanatismo. Como afirmou Bento XVI, seus relatos se assemelham aos dos primeiros cristãos: não havia ódio ou desespero, apenas a certeza serena de quem encontrou o Tesouro escondido.
Entre os nomes que celebramos, destacam-se os nomes simples: Luís Ibaraki, um neófito, e Tomé, que partiu ao lado de seu pai. Eles nos ensinam que Deus não mede a santidade pela idade ou pelo tempo de caminhada, mas pela profundidade do amor entregue no momento da prova.
Frutos de Sangue e Legado
O sangue derramado no Japão não foi em vão. Quase dois séculos depois, em 1862, o Papa Pio IX elevou esses mártires à glória dos altares. Seu sacrifício ecoou através dos séculos, inspirando vocações grandiosas. Um seminarista italiano, Daniel Comboni, leu sobre a firmeza desses japoneses e sentiu o chamado irresistível para levar o Evangelho à África, provando que a fé, quando abraçada totalmente, transcende fronteiras e gera novas missões.
Hoje, a Catedral de Ōura em Nagasaki permanece como um monumento vivo à perseverança da fé. Ali, onde a história se tornou hóstia, somos convidados a questionar: estamos dispostos a carregar nossa cruz com a mesma alegria serena? Conheça mais sobre São Paulo Míki e Companheiros Mártires.
A Lição para o Nosso Tempo
Nossa batalha, muitas vezes, não se trava contra a lança do soldado, mas contra a indiferença, a descrença e o medo de nos posicionarmos publicamente. São Paulo Míki e seus companheiros nos lembram que o cristianismo não é uma filosofia suave, mas uma entrega radical. Eles nos desafiam a sermos anunciadores do Evangelho, mesmo que o custo seja o desconforto social ou a rejeição. A verdade incomoda quem vive no erro.
Que a intercessão desses patronos do Japão nos fortaleça. Que possamos, em nossos pequenos Gólgotas diários, perdoar quem nos ofende e manter o olhar fixo na recompensa celeste. A fé testada no fogo não se apaga; ela brilha com fulgor eterno. Caminhar com fé é confiar que Deus suprirá cada passo nosso.
Que a certeza serena destes mártires seja a nossa âncora inabalável na jornada rumo ao Reino.
Fonte de inspiração: Canção Nova




