No palco da história medieval, onde a ambição frequentemente suplantava a virtude, ergue-se a figura singular de São Canuto, um rei dinamarquês cuja coroa foi forjada mais na fornalha da fé do que no ouro da herança.
A Vocação Não do Poder, Mas do Serviço
Nascido príncipe no ano de 1040, Canuto era herdeiro por direito, destinado a governar. No entanto, a verdadeira sucessão em sua alma não era pelo trono, mas pela graça. Ele personificava uma nobreza de espírito rara. Quando a morte de seu pai clamou por um sucessor, as intrigas humanas, cegas à luz de Deus, forçaram um desvio injusto, colocando seu irmão no lugar que lhe pertencia legitimamente.
Aqui reside a primeira lição para nós: Canuto não agarrou o poder com as garras da impaciência. Ele compreendeu que um reinado imposto pela força e pela desordem moral raramente frutifica em bênçãos. Ele aceitou a espera, confiando no tempo de Deus. Somente quando a ordem natural e justa foi restaurada, com o falecimento do irmão, ele assumiu o cetro. Sua ascensão foi um ato de retidão, não de vingança. Saiba mais sobre São Canuto.
O Evangelho Vivido no Palácio
São Canuto entendeu que o governo de um povo cristão começa no governo de si mesmo. Seu reinado não foi marcado por opulentos discursos políticos, mas pelo testemunho diário. Para este rei, a melhor catequese para uma nação era a coerência de vida. Ele foi um esposo devoto e um pai exemplar, preparando para a santidade seu próprio filho, Carlos, que também seria aclamado como santo.
A curiosidade de seu governo reside na forma como ele administrava o poder temporal: como um mordomo dos bens de Deus. A justiça não era uma ferramenta política, mas um mandamento divino. Sua sensibilidade para com os órfãos, as viúvas e os marginalizados não era um adendo à sua realeza, mas o cerne dela. Sua empatia era um reflexo palpável do coração misericordioso de Cristo. Serviço ativo é fundamental na fé.
O Martírio da Caridade
Um coração tão aberto à justiça e à caridade, inevitavelmente, gera inveja nos corações endurecidos. Canuto era um espelho tão brilhante que ofuscava aqueles que preferiam viver nas sombras da iniquidade. Ele se tornou, assim, um alvo. Como o próprio Senhor, ele foi odiado por aqueles que se fecharam à verdade e ao bem.
O clímax de sua vida terrena é um dos mais pungentes exemplos de perdão cristão. Sabendo que seus inimigos armavam para tirá-lo do trono, o rei não se curvou ao pânico. Seu refúgio final, como sempre, foi o Altar. Participando da Eucaristia, o ápice de seu encontro com o Senhor, ele não apenas recebeu o Corpo e Sangue de Cristo, mas, inspirado por esse Sacramento de Amor, tomou uma decisão radical.
Em um ato supremo de imitação de Cristo na Cruz, São Canuto perdoou publicamente todos os seus agressores antes mesmo que o golpe fosse desferido. Ele selou seu reinado com a mesma misericórdia que pregava. Assassinato durante ou logo após a Missa, ele trocou a coroa terrena pela coroa da glória imortal.
A Lição para o Cristão de Hoje
Em um mundo que valoriza a autopromoção e a rapidez das conquistas, São Canuto nos lembra que a verdadeira autoridade reside na paciência e na serviço desinteressado. Se somos chamados a ser “reis e sacerdotes”, nosso reinado deve ser sobre nossos vícios e nossa missão deve ser de caridade. A forma como tratamos os mais vulneráveis é o verdadeiro termômetro da nossa fé. Serviço desinteressado é um caminho de santidade.
Que a memória de Canuto nos inspire a buscar a justiça com mansidão e a perdoar com a mesma audácia com que ele se aproximou da comunhão final, sabendo que o amor a Deus e ao próximo é a única política que nunca falha.
São Canuto, intercede por nós para que possamos reinar sobre nós mesmos e servir os irmãos com um coração verdadeiramente cristão!
Fonte de inspiração: Canção Nova





