No calendário da Igreja, há dias reservados para celebrar aqueles cujas vidas foram um testemunho eloquente do Evangelho. Hoje, voltamos nossos olhos para a Índia e Ceilão (atual Sri Lanka) para contemplar a figura incandescente de São José Vaz, um sacerdote cujo zelo missionário beirava a própria exaustão em nome de Cristo e de sua Igreja martirizada. Para saber mais sobre este santo, confira a biografia de São José Vaz.
A Semente Plantada em Goa
Nascido em Goa, em 1651, José Vaz cresceu sob o compasso de uma fé fervorosa. Sua formação, robusta na filosofia e teologia, culminou em sua ordenação em 1676. Longe de buscar o conforto de uma cátedra fixa, este jovem presbítero já manifestava um espírito inquieto. Ele era um pregador itinerante, um semeador de palavras de vida, e um zelador das vocações, fundando um seminário rudimentar para jovens que ansiavam pelo ministério sagrado. Um marco em sua vida espiritual foi a entrega total à Virgem Maria, consagrando-se a Ela como “escravo perpétuo” – um ato de profunda humildade e devoção filial.
O Chamado do Além-Mar e o Disfarce do Servo
O coração de São José Vaz não podia se contentar com fronteiras. Ao tomar conhecimento da situação precária dos católicos no Ceilão, subjugados pela opressão holandesa que visava erradicar o catolicismo implantado pelos portugueses, um desejo missionário inextinguível se acendeu nele. Não bastava querer; era preciso agir na clandestinidade.
Em 1686, a missão começou com um ato de profunda abnegação. Para burlar a vigilância holandesa, São José Vaz não se vestiu de clérigo, mas sim como um “coolie”, o mais humilde dos servos. Com um cilício áspero apertando sua cintura, ele se infiltrou na ilha. Sua metodologia para encontrar os fiéis dispersos era singela e cheia de fé: batia de porta em porta, muitas vezes faminto, ostentando um grande rosário ao pescoço. A reação das pessoas ao verem aquele objeto sagrado servia como um teste, abrindo caminho para a celebração oculta dos sacramentos.
A Forja da Perseguição: Prisão e Fidelidade
A luz, por mais que tente ser escondida, sempre revela-se. A presença de José Vaz foi denunciada. Aqueles que lhe estenderam a mão sofreram açoitamentos e prisões. Ele próprio enfrentou o cativeiro, sendo acusado de ser um espião português. Em Kandy, foi acorrentado e passou mais de dois anos em grilhões.
Contudo, a prisão não silenciou o apóstolo. Pelo contrário, a cela tornou-se um novo púlpito. Os fiéis o procuravam, e ele, mesmo acorrentado, continuava a ministrar a graça sacramental. A fama de sua santidade inabalável cruzou barreiras, chegando aos ouvidos do próprio rei. Convencido de sua inocência, o soberano o libertou, mas impôs-lhe uma prisão domiciliar.
Mesmo sob restrições, seu apostolado floresceu. Naquela época de Natal, em 1691, São José Vaz conseguiu celebrar a Eucaristia pela primeira vez em Kandy. A admiração cresceu, estendendo-se até mesmo aos líderes budistas, que reconheciam em seu trato a pura caridade cristã. A liberdade plena viria, mas somente após um milagre público que selou sua reputação entre o povo.
O Zelo que Não Conhecia Descanso
A partir de Kandy, São José Vaz se tornou a própria personificação do apóstolo incansável. Ele percorria selvas densas, ignorando cobras venenosas e feras, caminhando descalço por centenas de quilômetros. Sua missão era restaurar a Igreja local, formando catequistas, confortando os doentes e edificando capelas onde antes havia apenas ruínas espirituais. Ele reconstruiu a Igreja ceilanesa com a força de sua oração e a tenacidade de seu corpo exausto. Em tempos de desânimo, podemos aprender com a fé em ação de Deus, mesmo no silêncio.
No crepúsculo de sua vida, em 1710, o corpo já não conseguia acompanhar a chama da alma. Após uma última jornada extenuante, foi trazido de volta a Kandy, onde faleceu em janeiro de 1711, aos 60 anos, após 24 anos de um apostolado heroico no Ceilão. Sua vida é um exemplo de serviço ativo prestado até o fim.
Lição para o Cristão de Hoje
São José Vaz nos ensina que o zelo apostólico não é uma questão de conforto ou de meios grandiosos, mas sim de entrega total à vontade de Deus, mesmo que isso exija o disfarce do “coolie” e a dor da prisão. Em nossa era de comunicação instantânea, o exemplo dele nos lembra que a evangelização autêntica muitas vezes se esconde nos lugares mais humildes e exige o sacrifício do nosso tempo e reputação.
Que a memória deste missionário, que trocou a segurança pela cruz no campo estrangeiro, reacenda em nós a coragem de sermos sal e luz onde quer que a Providência nos coloque, sem medo das dificuldades ou das correntes da indiferença.
Que o fogo de São José Vaz reacenda em nossas almas o amor ardente por Cristo e pela salvação das almas!
Fonte de inspiração: Canção Nova





