A percepção de um Deus severo, por vezes “sanguinário”, no Antigo Testamento, em contraste com o misericordioso do Novo Testamento, é uma dúvida recorrente. Essa questão, que no século II gerou o marcionismo (heresia que tentava descartar o Antigo Testamento), encontra na Igreja Católica uma interpretação que harmoniza essas visões.
É crucial entender que as Escrituras revelam um único Deus. No Antigo Testamento, também vemos bondade, compaixão e fidelidade. No Novo, Jesus prega o amor, mas anuncia juízo e a necessidade de conversão. A diferença reside na progressão da revelação, não em dois deuses distintos.
A Unidade Divina: Além da Dicotomia de Marcião
Marcião defendia um Deus “mau” no Antigo Testamento e um “bom” no Novo, propondo eliminar o primeiro. Contudo, essa dicotomia não reflete a totalidade bíblica. A Igreja sustenta que o mesmo Deus se revela em ambas as partes das Escrituras, amadurecendo a revelação ao longo do tempo e adaptando-se à capacidade humana de compreensão.
A Leitura Cristológica: Continuidade, Ruptura e Superação
A Igreja compreende a relação entre os Testamentos por meio de uma leitura cristológica do Antigo Testamento. Essa abordagem, conforme a tradição e a Verbum Domini de Bento XVI, destaca uma dinâmica que culmina em Jesus Cristo:
Há uma clara continuidade, pois Jesus é o Messias esperado e profetizado. Profecias e eventos antigos encontram sua realização Nele, demonstrando um plano divino único.
Ao mesmo tempo, existe uma ruptura. Jesus não se encaixou em todas as expectativas humanas. Ele é o Messias esperado, mas surpreende com a humildade e a natureza espiritual de Seu Reino.
O Novo Testamento supera o Antigo, levando-o à sua plenitude. As promessas e a Lei antigas não são anuladas, mas elevadas e aperfeiçoadas em Cristo, que revela Deus de forma mais completa.
Reinterpretando a Violência: A Chave Tipológica
Para passagens de violência e derramamento de sangue no Antigo Testamento, como os Salmos de Davi, a Igreja orienta uma leitura tipológica. Nelas, enxergamos figuras de realidades espirituais que Jesus Cristo revelaria plenamente.
As batalhas físicas prefiguram a batalha espiritual contra o mal, demônios e pecado. Os “inimigos” de Davi podem ser relidos como forças espirituais malignas; os “filhos dos inimigos” como pecados a serem “lançados” contra a firmeza da Palavra de Deus, que os destrói.
Assim, a severidade do Antigo Testamento prepara para a Revelação plena em Jesus Cristo, cujo próprio sangue, derramado na cruz, é o sacrifício definitivo. Como afirmou Santo Agostinho, “o Novo Testamento está escondido no antigo, e o antigo floresce no novo”, manifestando a unidade do plano divino.





